9.6.06

madrugar em moçambique

Madrugar é enrolar a neblina
No silêncio das despedidas
Deitar a noite
Numa esteira de luz
Acordar o dia
Com o frio da manhã

poemailustrado

9.3.06

menino da rua

deste lado do espelho
não há existência, não há cor

no tempo velho
não há infância, só dor

na solidão deste olhar
não encontrei o sol

vi-te desaparecer
no escuro da rua
de mão dada com a lua

neste chão que piso
senti o amargo da vida
do meu menino da rua

8.3.06

vertigem

vertigem
é o que se sente
quando de dentro sopra
a voragem de um dia ficar
frente a frente

é o que se perde
por não saber
que por entre a folhagem
existe um rosto
próprio

6.3.06

quem sou

que fazes hoje?
que dia é hoje?

dia de passar por ti
dia de te beijar

que dia é hoje?
quem sou eu?

6.2.06

hoje

hoje
parei em frente da tua janela,
senti o frio dos dias,
vi o teu rosto espelhado
no rio dos meus olhos

não me lembro do tempo
em que te esqueci

ficarei sempre na tua janela
olhando o teu rosto
em mim

23.12.05

luz

que o mar se faça de sonhos
que ondas agitem sorrisos
que o vento vos beije ternamente

e lá longe, muito longe
onde as amarras são cabelos finos
que se agitam como velas
com as mãos de luar
cuidem desse sonho

que tudo seja apenas luz
que se agite, inquieta
no vosso olhar

7.12.05

que a terra comece a girar

que a terra comece a girar
como flor na mão de uma mulher
que nos olhos dela se cumpra o destino
de ser um só

que a terra comece a girar
em sentido contrário ao desejo
de todos os amantes

que a terra comece a girar
como uma mulher apaixonada
doce, terna e para sempre encantada

que a terra comece a girar
e a luz se apague nos meus olhos cansados
que o mundo sujo se lave naquele rio
de desejo de um dia ser ser um só

5.12.05

hoje

Deixei que a noite chegasse devagar.

O frio que me recebeu na chegada à casa de pedra ficou para jantar.
Acendi a lareira.

Hoje, sozinho, deixei-me envolver pela neblina. Deixei-me conquistar pelos braços doces de um amor antigo.

Hoje é o dia.
O dia em que o mundo fica pendurado no amor de dois amantes.
Hoje o mundo mudou.
Inventou-se a paixão efémera de um beijo às escondidas.

Hoje é noite.
Na serra não há lugar à vida dos amantes.
Aqui a neblina envolve e mata cada segundo da nossa memória.Somos dois, hoje!

Acendi o charuto, aconcheguei o casaco de lã, encostei-me à varanda e deixei que a neblina nua me abraçe.

Hoje, na noite, não há lugar ao amor.

21.9.05

azul

é de azul o quadro que quero pintar
é de azul que te quero vestir
é azul o que quero plantar
é azul o que desejo sentir

é azul o mar dos meus sonhos
é azul cor do céu que te quero ver
é azul a paz nos teus olhos
é no azul que quero viver

16.9.05

olha

… vês-me? Aqui. A acenar.
Sou eu. Esta brisa que sentes.
Não olhas?
Viste como corria?
Consegui ver-te pela janela
Ainda te beijei
… mas não notaste.
Agora rodopio em espirais infinitas
Só. Sem o teu sorriso.

6.9.05

Os Sete Sapatos Sujos

Mia Couto

"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos devdeixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros.
- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem critica é um inimigo.
- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça.
- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.

22.8.05

g8

sentaram-se à mesa.
não havia nada para dizer!
começaram por comer o mundo
... acharam África dura de roer

dançaram de chapéu na mão
batiam palmas de contentamento.
... eles iam morrer da ilusão.
recusaram a comer no chão

no fim, levantaram-se
abanaram os rabos
... deitaram muitos sorrisos
e partiram em direcção ao paraíso.

5.8.05

espera

separo-me de tudo para te conquistar
talvez não saibas o que é ficar
para te ver partir

talvez tudo o que sempre desejei
queríamos o mundo
na nossa mão

abri as asas
ficaste sentada a ver-me voar
sem querer partir
vi-te de longe sempre a sorrir
pronta para amar

voam

voam os abutres.
os porcos ganharam
alegrai-vos, povo
perdemos, nós
que sentimos
garras e esperança
em olhos doces

24.7.05

sempre

é isto que nos prende à vida.
não nos deixa cair
um sitio algum
do qual
ninguém possa sair.
mas podemos continuar
sem parar, sempre
no mesmo sitio
sem que isso importe
a quem nos traçou o destino

talvez

talvez

só o horizonte me diga onde estou.
perdi um bocado de mim
deixei-o para trás

é tarde
vejo-me de longe
não me saúdo.

bela é a vida
que se perde.

24.4.05

moçambique

de olhos perdidos percorri teu corpo
desejo-te como se fosses uma mulher
levas-me no vento da tarde
deixas-me no sol que nasce no mar

olha-me nos olhos, diz que não gostas
que te olhe assim apaixonado
que queres as acácias só para ti
que a tua beleza é só para os viajantes

desejo-te nos olhos de todos que passam
nos beijos daqueles que abusam de ti
não sei me queres tomar no teu mar
não sei se me deixas deitar nas tuas praias

mas... deixa-me ficar!

que vida

que dor é esta
que quasi me distrai da vida

que sonho é este
que me prende à vida

que desejo é este
que me deixa apaixonado pela vida

que carinho é este
que se quer perto da vida

apaixonado?
vai dar uma volta pela vida!

22.4.05

é Abril, embora não pareça!

Sei de um lagarto amarelo que lentamente sobe uma parede. Aos olhos de todos parece imóvel, mas para mim move-se. Lentamente é certo, mas move-se. Agora está sobre um quadro imitando uma parece de tijolo de tons de avermelhados. Aproximei-me um pouco mais do quadro.

sei de um tempo onde as flores azuis
se confundem com o mar
sei do desespero de quem não morre por querer
simplesmente, desejo que as flores dancem em volta de ti

Porque me falas assim? É Abril, não reparas nos meses do ano? O lagarto amarelo continuou a subir o quadro. Para onde vais?

sai daí. sai de ti.
sobe os estores do quotidiano e olha.
espanta-te.
os dias enlouquecem iguais.
sucedem-se, encadeados.
na Praça de Nemésis pintam-se palavras.
colunas de palavras. muitas palavras.

é Abril, embora não pareça.

pássaros de seda cantam as recordações
de silêncios consentidos, forçados e amordaçados.
barcos de papel deslizam em nesgas de luz.
folhas vermelhas cobrem a copa frondosa da multidão
e há cegueira bastante para não ver as flores.

Abril? Um mês igual a todos os outros. O lagarto amarelo nada disse, continuou a subir vagarosamente o quadro. Porque sobes o quadro?

tive um mar, só meu
construí uma ilha, só minha
deixei-me abraçar pelo vento
sentado na areia, via o Sol partir
sentado na praia, via a Lua chegar
fui, então, navegante
fui um descobridor
o mar era, então, um murmúrio
a ilha era, toda ela um encanto

agora, procuro o meu mar
mas tudo é tão estupidamente real.

Deixei-o. Não se incomodam os sonhos de ninguém, por mais irreais que possam parecer. Até sempre, lagarto amarelo. Até um dia.