22.8.05
g8
não havia nada para dizer!
começaram por comer o mundo
... acharam África dura de roer
dançaram de chapéu na mão
batiam palmas de contentamento.
... eles iam morrer da ilusão.
recusaram a comer no chão
no fim, levantaram-se
abanaram os rabos
... deitaram muitos sorrisos
e partiram em direcção ao paraíso.
5.8.05
espera
talvez não saibas o que é ficar
para te ver partir
talvez tudo o que sempre desejei
queríamos o mundo
na nossa mão
abri as asas
ficaste sentada a ver-me voar
sem querer partir
vi-te de longe sempre a sorrir
pronta para amar
24.7.05
24.4.05
moçambique
desejo-te como se fosses uma mulher
levas-me no vento da tarde
deixas-me no sol que nasce no mar
olha-me nos olhos, diz que não gostas
que te olhe assim apaixonado
que queres as acácias só para ti
que a tua beleza é só para os viajantes
desejo-te nos olhos de todos que passam
nos beijos daqueles que abusam de ti
não sei me queres tomar no teu mar
não sei se me deixas deitar nas tuas praias
mas... deixa-me ficar!
22.4.05
é Abril, embora não pareça!
Sei de um lagarto amarelo que lentamente sobe uma parede. Aos olhos de todos parece imóvel, mas para mim move-se. Lentamente é certo, mas move-se. Agora está sobre um quadro imitando uma parece de tijolo de tons de avermelhados. Aproximei-me um pouco mais do quadro.
sei de um tempo onde as flores azuis
se confundem com o mar
sei do desespero de quem não morre por querer
simplesmente, desejo que as flores dancem em volta de ti
Porque me falas assim? É Abril, não reparas nos meses do ano? O lagarto amarelo continuou a subir o quadro. Para onde vais?
sai daí. sai de ti.
sobe os estores do quotidiano e olha.
espanta-te.
os dias enlouquecem iguais.
sucedem-se, encadeados.
na Praça de Nemésis pintam-se palavras.
colunas de palavras. muitas palavras.
é Abril, embora não pareça.
pássaros de seda cantam as recordações
de silêncios consentidos, forçados e amordaçados.
barcos de papel deslizam em nesgas de luz.
folhas vermelhas cobrem a copa frondosa da multidão
e há cegueira bastante para não ver as flores.
Abril? Um mês igual a todos os outros. O lagarto amarelo nada disse, continuou a subir vagarosamente o quadro. Porque sobes o quadro?
tive um mar, só meu
construí uma ilha, só minha
deixei-me abraçar pelo vento
sentado na areia, via o Sol partir
sentado na praia, via a Lua chegar
fui, então, navegante
fui um descobridor
o mar era, então, um murmúrio
a ilha era, toda ela um encanto
agora, procuro o meu mar
mas tudo é tão estupidamente real.
Deixei-o. Não se incomodam os sonhos de ninguém, por mais irreais que possam parecer. Até sempre, lagarto amarelo. Até um dia.
hoje parti
não quis que me visses assim
é que nada tenho para te dizer
agora, corro pelas águas de abril
peço-te que não me procures
são sombras que passam por mim
e já não és tu que me prende à vida
12.4.05
olhos de longe
a diferença mora longe
na descoberta de um sentimento
nos olhos tristes
os olhares marcados
pelo mar, pelo desejo
de uma nova vida
que passa sempre ao lado
de quem tem, apenas, o olhar
para amar
Uma visão de Maputo...
Por uma vida que lhes foi madrasta...
Sorrisos que escondem lágrimas;
Olhos tristes,
Profundos e imensos.
Escuros pelo sofrimento,
Claros pela esperança.
Corpo no hoje
Alma no ontem
Sem nada para o amanhã...
Vidas no limite
Entre o belo e a amargura
Entre a saudade e a esperança.
Entre a harmonia e a agitação,
De cores, pessoas, vegetação...
Gostos incomparáveis,
Sabores que nos fazem planar...
Elevando-nos às nuvens,
Permitindo-nos tocar no céu
E bailar com os anjos
Ao som de uma melodia,
Que não invade apenas os ouvidos,
Mas apodera-se de todo o teu ser...
Paisagens...
Ai paisagens...
Cenários que só se sonham,
Imagens que não nos atrevemos a imaginar
Sentimentos que emergem,
Vontades que se soltam,
Vidas que se transformam,
Rostos que se iluminam,
Corpos que planam,
Sem nem querer saber o seu destino...
Pessoas amáveis,
Que na sua vida tão simples,
Acolhem quem lhes sorri...
Abraçam quem lhes dá um olhar
Apaixonam quem as ouve.
Pessoas que não te vêm
Olham-te, sentem-te
Recebem-te como ninguém.
De onde vens?
Para onde vais?
Não importa...
Estás aqui e
Aqui ficarás,
Ainda que não presente...
Perfeição...
Imperfeição...
Harmonia...
Turbulência...
Alegria...
Tristeza...
Um misto,
O limite entre tudo, entre nada
Algo que prende,
Algo que envolve,
Onde nos perdemos,
Onde deixamos de nós
Onde finalmente...
Temos a nossa saudade...
carla carvalho
19.3.05
dias que passam
e eu aqui parado
crio a imagem de ti
são de luz as mãos
que me apertam
neste estado de inquietude
são desejos moribundos
deste sol que não vai nascer
há palavras
Como se tivessem boca,
Palavras de amor,
de esperança,
De imenso amor,
de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas,
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
6.3.05
17.1.05
torga
Chama-se Miguel Torga. Somos irmãos e temos a mesma riqueza.
Mas há dias reparámos nesta coisa simples: para que aos vossos olhos um de nós surgisse Cristo, necessariamente o outro tinha de fazer de Judas. E eu sacrifiquei-me (...).
Apesar disso, despeço-me da cena e dou a minha palavra de honra que não reapareço..."
15.1.05
olhos
ajudo-te porque te sei apaixonada
deixo-te voar por entre os braços
nadas no teus olhos triste
cobertos de mágoa
um cego em paris
Era uma vez um cego sentado na calçada em Paris, com um boné a seus pés e um pedaço de madeira que, escrito com giz branco dizia: «Por favor, ajude-me, sou cego».
Um publicitário, da área de criação, que passava em frente a ele, parou e viu que o boné tinha umas poucas de moedas. Sem pedir licença, pegou no cartaz, virou-o, pegou no giz e escreveu outro anúncio. Voltou a colocar o pedaço de madeira aos pés do cego e foi-se embora. Pela tarde, o publicitário voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Agora, o seu boné estava cheio de notas e moedas.
O cego reconheceu as pisadas e perguntou-lhe se havia sido ele quem reescreveu o seu cartaz, querendo saber o que havia escrito ali.
O publicitário respondeu: «Nada que não esteja de acordo com o seu anúncio, mas com outras palavras.»
Sorriu e continuou seu caminho.
O cego nunca soube, mas o seu novo cartaz dizia: «Hoje é Primavera em Paris, e eu não posso vê-la.»
Mudar a estratégia, quando nada nos acontece, pode trazer novas perspectivas.
23.12.04
a coisa
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
- Mas quando será de todos?»
Sidónio Muralha
13.12.04
canto negro (josé régio)
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vos
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avos,
E vos amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peca definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se levantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por ai.
