13.3.07

ruina

perde-se o tempo
numa ruína desejada

criou-se o mar para navegar

sentimos o vento ...
com ele a esperança

mas de nada serve
se não te posso amar

26.1.07

beijo

fechei os olhos
num escuro descanço
deixei-me prender

nos lábios quentes
ficou presa, a imagem
no escuro do céu

tudo acaba aqui
no alto das estrelas
partindo do mundo

24.1.07

eu nem sei

abri os braços
junto ao abismo
do mais profundo do olhar

- sabes, sei voar!

desejo que sejas uma ave do paraíso
e salto, no mais profundo abismo

- sabes, nem sei sequer abrir as asas.
sustenho o ar e o riso

1.12.06

dia de tudo

se houvesse um dia, um só dia,
um dia de mudar
vestia o melhor fato, até gravata,
saia na rua a dançar

se houvesse esse dia
bebia o melhor vinho
matava de uma vez só
a saudade de me libertar

se houvesse um dia, meio dia,
a noite seria de estrelas
cintilantes só nos teus olhos
de tanto amar

18.9.06

claro

claro

que te deixo cair
num sermão desarticulado
de mal dizer

podes morrer
numa overdose
de estupidez

que nada me importa!
porque eu?
quero apenas viver

8.9.06

não vou

não vou voltar para te amar
não vou deixar de te beijar

enquanto o som das palavras se ouvir
não vou desistir

de criar uma imagem de partida
um adeus no ar

para não voltar

15.8.06

infelicidade

porquê?
porque te julgas importante para me julgar?

de onde vens?
quantas vezes ousaste ser diferente?

que voz queres?

sinto que és infeliz
porque não tens um mar

tens um rio
que não tem foz

sem ti

sem ti
não vi o sol chegar
perdido no horizonte
num abandono desesperado
desejei ser o vento
para te beijar

9.6.06

madrugar em moçambique

Madrugar é enrolar a neblina
No silêncio das despedidas
Deitar a noite
Numa esteira de luz
Acordar o dia
Com o frio da manhã

poemailustrado

9.3.06

menino da rua

deste lado do espelho
não há existência, não há cor

no tempo velho
não há infância, só dor

na solidão deste olhar
não encontrei o sol

vi-te desaparecer
no escuro da rua
de mão dada com a lua

neste chão que piso
senti o amargo da vida
do meu menino da rua

8.3.06

vertigem

vertigem
é o que se sente
quando de dentro sopra
a voragem de um dia ficar
frente a frente

é o que se perde
por não saber
que por entre a folhagem
existe um rosto
próprio

6.3.06

quem sou

que fazes hoje?
que dia é hoje?

dia de passar por ti
dia de te beijar

que dia é hoje?
quem sou eu?

6.2.06

hoje

hoje
parei em frente da tua janela,
senti o frio dos dias,
vi o teu rosto espelhado
no rio dos meus olhos

não me lembro do tempo
em que te esqueci

ficarei sempre na tua janela
olhando o teu rosto
em mim

23.12.05

luz

que o mar se faça de sonhos
que ondas agitem sorrisos
que o vento vos beije ternamente

e lá longe, muito longe
onde as amarras são cabelos finos
que se agitam como velas
com as mãos de luar
cuidem desse sonho

que tudo seja apenas luz
que se agite, inquieta
no vosso olhar

7.12.05

que a terra comece a girar

que a terra comece a girar
como flor na mão de uma mulher
que nos olhos dela se cumpra o destino
de ser um só

que a terra comece a girar
em sentido contrário ao desejo
de todos os amantes

que a terra comece a girar
como uma mulher apaixonada
doce, terna e para sempre encantada

que a terra comece a girar
e a luz se apague nos meus olhos cansados
que o mundo sujo se lave naquele rio
de desejo de um dia ser ser um só

5.12.05

hoje

Deixei que a noite chegasse devagar.

O frio que me recebeu na chegada à casa de pedra ficou para jantar.
Acendi a lareira.

Hoje, sozinho, deixei-me envolver pela neblina. Deixei-me conquistar pelos braços doces de um amor antigo.

Hoje é o dia.
O dia em que o mundo fica pendurado no amor de dois amantes.
Hoje o mundo mudou.
Inventou-se a paixão efémera de um beijo às escondidas.

Hoje é noite.
Na serra não há lugar à vida dos amantes.
Aqui a neblina envolve e mata cada segundo da nossa memória.Somos dois, hoje!

Acendi o charuto, aconcheguei o casaco de lã, encostei-me à varanda e deixei que a neblina nua me abraçe.

Hoje, na noite, não há lugar ao amor.

21.9.05

azul

é de azul o quadro que quero pintar
é de azul que te quero vestir
é azul o que quero plantar
é azul o que desejo sentir

é azul o mar dos meus sonhos
é azul cor do céu que te quero ver
é azul a paz nos teus olhos
é no azul que quero viver

16.9.05

olha

… vês-me? Aqui. A acenar.
Sou eu. Esta brisa que sentes.
Não olhas?
Viste como corria?
Consegui ver-te pela janela
Ainda te beijei
… mas não notaste.
Agora rodopio em espirais infinitas
Só. Sem o teu sorriso.

6.9.05

Os Sete Sapatos Sujos

Mia Couto

"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos devdeixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros.
- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem critica é um inimigo.
- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça.
- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.